Posts de Dezembro, 2006

COTIDIANO

Dezembro 20, 2006

René Ruschel, jornalista

 Torquato era o que se pode chamar de um homem metódico. Ao acordar, imediatamente apalpava o criado mudo em busca dos óculos para conferir a hora e certificar-se de que não estava atrasado para o trabalho. Tinha sempre precaução e cuidado com o copo dágua que levava à véspera sobre um pires de porcelana barata. Na verdade, ele nem sabia por que não se livrava daquela mania, afinal, há tempos o sono pesado o impedia de acordar para beber água. Toda manhã se antecipava ao despertador desligando-o, para que Matilde, sua mulher, pudesse dormir um pouco mais. Torquato não tinha o hábito de tomar café em casa, preferia a panificadora da esquina. Primeiro ia à banca comprar o jornal, depois atravessava a rua, sempre na faixa de pedestres, em direção à panificadora. Lá, como fazia há mais de quinze anos, tomava uma xícara de café com leite acompanhado de pão com manteiga e queijo. Presunto, só se a fatia estivesse cortada bem fina “quase transparente”.

Num ritual litúrgico, começava a leitura pelas manchetes da primeira página, da esquerda para a direita, conforme a importância que atribuía a cada notícia. Tinha preferência pelas notas políticas, econômicas, esporte e amenidades, além do obituário, são claro. Sempre nessa ordem de interesse. Ultimamente era obrigada a ler relatos policiais, afinal, violência tornara-se assunto obrigatório. Atento, costumava se questionar por que os jornais tinham exatamente seis colunas. Em sua rotina de trabalho como contador, uma vez tentou ordenar os balancetes mensais em colunas uniformes, mas logo desistiu. Naquele tempo a inflação corroia o país e os valores escritos eram, em termos de espaços, enormes. Observou que mensalmente era obrigado a alterar as posições dos quadros e gráficos porque os números cresciam sempre – “nunca diminuem” – tornando a vida de diretores e conselheiros do banco um inferno. Num mês, o item do ativo “realizável a longo prazo” ficava logo abaixo do “circulante” e acima do “permanente”; noutro, em função das “demonstrações de resultados” estarem fora da ordem seqüencial, o “passivo e patrimônio liquido” corriam para onde não deveriam ir; daí, que a “Demonstração do Resultado”, a síntese de leitura do balanço, acabava se tornando algo de difícil manejo, afinal, o “lucro liquido do exercício” – na prática a única informação que interessa à Diretoria de qualquer empresa – saltava à página seguinte. Após varias tentativas, Torquato chegou à conclusão que era melhor manter-se fiel às regras contábeis tradicionais.

Os ternos – na verdade dois, um cinza claro com riscos marrons e outro azul-marinho – o tornavam ainda mais anônimo; as camisas, branca ou azul; as gravatas em tom sóbrio, com pequenos detalhes em amarelo ou preto. Sua gravata preferida, uma azul-escura com discretas bolinhas vermelhas, a mulher havia transformado em varal num daqueles invernos rigorosos, quando nem mesmo as cadeiras da sala ou o motor da geladeira foram capazes de secar, por ordem de importância, as roupas das crianças, os uniformes da escola, as toalhas de banho e, obviamente, as roupas do casal. Enquanto lia e tomava o desjejum, ficava atento ao horário. Costumava pegar o coletivo da linha Rio Verde-Centro, cujo ponto final ficava a mais ou menos 200 metros da panificadora, às 07h05. Defronte a banca de revista – exatamente no lado oposto da rua – havia outra parada de ônibus, mas Torquato preferia caminhar agora que estava fresco a enfrentar o calor mais tarde no agitado trânsito do centro da cidade. Além do que, a lotação que costumava tomar parava a menos de 100 metros – “quase na porta” – do seu local de trabalho, compensando os 30 minutos que demorava a cumprir seu trajeto, quando aproveitava e lia a página policial e de esporte.

Tinha algumas manias que o acompanhavam anos a fio. O relógio, que usava no pulso direito, era como se fosse parte integrante de seu corpo, extensão do braço ou amuleto da sorte. Antes de sair de casa, observava, também, se a carteira de dinheiro estava no bolso traseiro direito da calça e, uma outra, com documentos e talão de cheques, além do lenço, no esquerdo. Apanhava o molho de chaves e, antes de enfiar no bolso direito do paletó, verificava se as do cofre, das gavetas da mesa, além da sobressalente da sala do chefe não estavam faltando. Conferia se o dinheiro para pagar o ônibus – ida e volta -, o jornal e o café era suficiente e ainda dava uma última olhada sobre a mesa de centro para ter certeza que não esqueceu nada. O gesto final era uma parada diante do espelho para arrumar o terno, a camisa, o nó da gravata e os cabelos. Quando chegava ao trabalho a operação desmonte era exatamente o oposto.

Esvaziava os bolsos, tirando as carteiras e o molho de chaves, deixando apenas o lenço. O paletó ficava pendurado num cabide atrás de um arquivo que há tempos não tinha mais uso, mas por falta de local para guarda-lo permanecia por lá. “Serve como guarda-roupa!”, exclamava sempre. Ao contrário dos colegas, não abria o jornal sobre a mesa e nem comentava as notícias do dia, principalmente às segundas feiras, quando os resultados do futebol do fim de semana acirravam as discussões matinais. Rapidamente o guardava, sempre na última gaveta do lado direito da mesa. Na verdade, Torquato não gostava de emprestar o jornal. Justificava que nem sempre devolviam todos os cadernos da edição ou então havia aqueles que rasgavam um pedaço das páginas de classificados.

- Quem quiser que compre – resmungava baixinho.

Se ainda pedissem, vá lá, mas a maioria era cara-de-pau. Iam desfolhando, distribuindo as páginas conforme os interesses de cada um. Compra de carro, aluguel de apartamento, troca de móveis, emprego. Havia até quem procurasse endereços de casas de massagem. Mas, o pior foi quando uma colega de repartição que ele havia indicado para ser admitida – o pai fora seu contemporâneo de regimento no Exército – durante varias semanas buscou um anúncio de venda, troca ou aluguel de vestido de noiva. Quando encontrou, pediu para ser dispensada do trabalho e foi verificar a vestimenta. Gostou e comprou por uma “ninharia”. Passados alguns meses, Torquato soube que ela havia se casado e ele foi o único que não recebeu convite. Que falta de consideração! Dela e do pai. Sua decepção foi tamanha que a partir daquele dia, ao entrar no prédio, ia logo esticando o braço ao porteiro, seu Olinto, um mulato sarará falante e educado, para presenteá-lo com o jornal.

- As últimas, seu Olinto, as últimas do dia! Anunciava antes de tomar o elevador.

Agora, pelo menos tinha com quem discutir as noticias do cotidiano.

Digite sua senha

Dezembro 20, 2006

Washington Araújo, jornalista

 Você tem senha para ler este texto? Não? Lógico que tem. Não tivesse não estaria lendo. Para tudo hoje em dia precisa-se de senha. No meu trabalho, para que eu faça alguma coisa, de útil ou não, preciso, pelo menos de quatro senhas. Para o banco, tantas outras. Já precisamos de senha para chegar num outro local que precisa de senha. É um labirinto de senhas. Esqueceu uma, danou-se. Em breve o carro só funcionará com senha. Será assim: chaves para abrir a porta, desligar o bloqueador de combustível e a trava de segurança. Aí, uma senha para destravar o volante e a chave para ignição. A marcha, automática ou não, também é uma senha.

E na sua casa, então? O controle remoto é uma combinação de senhas, onde você aciona para encontrar o seu canal favorito. Geladeira? Espere e verá. Em breve com senha para evitar cunhado folgado. O mesmo serve para o microondas. Máquina de lavar já conta com um monte de botõezinhos.

A única coisa que não tem senha ainda, felizmente, é uma boa transa. Eu disse ainda, pois não está longe o momento em que você precisará de uma senha para transar com sua digníssima esposa. E não vale esquecer. Quando mais jovem a gente recorria para a tabelinha, lembram? Era o dia da felicidade total. Dia em que você, homem, poderia transar sem camisinha. E você, mulher, então, abria mão da pílula para recorrer á matemática. Pergunto: a tabelinha não era uma senha também?

Lembro do quartel, quando, de sentinela, gritava para o incauto que passava perto de minha guarita; “Avance a senha, militar”. Ele dizia a senha e tudo bem. Se não tinha a senha, dava-se um jeito. Afinal, conhecia todos os soldados, cabos, sargentos e oficiais. O bicho só pegava quando eu esquecia a senha solicitada por um major. Cadeia para deixar de ser mocorongo. Além da senha, que mudava diariamente, tinha o número de matrícula. Todo dia de manhã, antes da ordem unida, perfilados, respondíamos à chamada. Em vez de gritar presente, a gente berrava o nosso número. Se marcasse bobeira e não ouvisse, punição para deixar de ser aloprado.

Desconfio que este excesso de senha que nos enlouquece hoje vem da auto-militarização. Estamos nos impondo um monte de regras e disciplinas. Parece que a vida fica mais fácil, mas é engano. Estou louco para criar uma senha para acabar com esta mania. De vez em quando esqueço uma, mas não tem jeito. Sou punido, quase como se tivesse no quartel. Esqueceu a senha do banco, digitou errado? Vai pagar o sapo de tirar outro cartão. Pagar, esperar e receber outro. Esqueceu a senha do micro? Tem que chamar o espertinho da informática, que dificulta ao máximo. Vende dificuldade parta colher facilidade. Esqueceu o horário marcado com a namorada ou chegou depois do combinado em casa? Lá vem bronca.

A única coisa que ainda não tem muita senha é o boteco. Alguns, metidos, jogam um cartão eletrônico, de plástico, em suas mãos. O pé sujo, não. O pé sujo funciona ainda com a memória do garçom. Então, meu amigo, ou minha amiga, quer esquecer desta vida cheia de senha, beba. Mas beba num lugar sem frescura. Frescura só na cerveja. Mate a sede, sem senha.

Noção de perda

Dezembro 20, 2006

Luiz César Cabral de Menezes, publicitário e designer

 Ao descer de um ônibus, no ponto final, percebi que o meu guarda-chuva ficou na poltrona. Quando me virei para buscá-lo era tarde, já tinha acelerado e sumia no fim do terminal. Inconformado, fui à cabine do despachante da companhia transportadora. Ao explicar a situação, fiquei surpreso com a resposta:

- Que ônibus? Não parou nenhum aqui agora!

O comentário, reforçado pela opinião de três trocadoras atentas ao assunto não me deixou dúvidas: definitivamente devo ter pego um disco voador com roleta e limitado a 47 passageiros sentados.

Após muita insistência, o cidadão se dirigiu ao fim do plataforma e viu o ônibus, que acabara de contornar o quarteirão e já parava no ponto de embarque. Devolveu meu guarda-chuva e, educadamente, me pediu desculpas. Agradeci e não me importei, essas coisas acontecem.

O mais interessante aconteceu quando me deparei novamente com as três “marocas”. Ao passar por elas, uma não resistiu e perguntou:

- Como é que o senhor consegue perder um guarda-chuva deste tamanho?

Devolvi de bate-pronto:

- Isso não é nada! Imagine só! Acabei de ver um bando de gente perder um ônibus no ponto final!!!