René Ruschel, jornalista
Torquato era o que se pode chamar de um homem metódico. Ao acordar, imediatamente apalpava o criado mudo em busca dos óculos para conferir a hora e certificar-se de que não estava atrasado para o trabalho. Tinha sempre precaução e cuidado com o copo dágua que levava à véspera sobre um pires de porcelana barata. Na verdade, ele nem sabia por que não se livrava daquela mania, afinal, há tempos o sono pesado o impedia de acordar para beber água. Toda manhã se antecipava ao despertador desligando-o, para que Matilde, sua mulher, pudesse dormir um pouco mais. Torquato não tinha o hábito de tomar café em casa, preferia a panificadora da esquina. Primeiro ia à banca comprar o jornal, depois atravessava a rua, sempre na faixa de pedestres, em direção à panificadora. Lá, como fazia há mais de quinze anos, tomava uma xícara de café com leite acompanhado de pão com manteiga e queijo. Presunto, só se a fatia estivesse cortada bem fina “quase transparente”.
Num ritual litúrgico, começava a leitura pelas manchetes da primeira página, da esquerda para a direita, conforme a importância que atribuía a cada notícia. Tinha preferência pelas notas políticas, econômicas, esporte e amenidades, além do obituário, são claro. Sempre nessa ordem de interesse. Ultimamente era obrigada a ler relatos policiais, afinal, violência tornara-se assunto obrigatório. Atento, costumava se questionar por que os jornais tinham exatamente seis colunas. Em sua rotina de trabalho como contador, uma vez tentou ordenar os balancetes mensais em colunas uniformes, mas logo desistiu. Naquele tempo a inflação corroia o país e os valores escritos eram, em termos de espaços, enormes. Observou que mensalmente era obrigado a alterar as posições dos quadros e gráficos porque os números cresciam sempre – “nunca diminuem” – tornando a vida de diretores e conselheiros do banco um inferno. Num mês, o item do ativo “realizável a longo prazo” ficava logo abaixo do “circulante” e acima do “permanente”; noutro, em função das “demonstrações de resultados” estarem fora da ordem seqüencial, o “passivo e patrimônio liquido” corriam para onde não deveriam ir; daí, que a “Demonstração do Resultado”, a síntese de leitura do balanço, acabava se tornando algo de difícil manejo, afinal, o “lucro liquido do exercício” – na prática a única informação que interessa à Diretoria de qualquer empresa – saltava à página seguinte. Após varias tentativas, Torquato chegou à conclusão que era melhor manter-se fiel às regras contábeis tradicionais.
Os ternos – na verdade dois, um cinza claro com riscos marrons e outro azul-marinho – o tornavam ainda mais anônimo; as camisas, branca ou azul; as gravatas em tom sóbrio, com pequenos detalhes em amarelo ou preto. Sua gravata preferida, uma azul-escura com discretas bolinhas vermelhas, a mulher havia transformado em varal num daqueles invernos rigorosos, quando nem mesmo as cadeiras da sala ou o motor da geladeira foram capazes de secar, por ordem de importância, as roupas das crianças, os uniformes da escola, as toalhas de banho e, obviamente, as roupas do casal. Enquanto lia e tomava o desjejum, ficava atento ao horário. Costumava pegar o coletivo da linha Rio Verde-Centro, cujo ponto final ficava a mais ou menos 200 metros da panificadora, às 07h05. Defronte a banca de revista – exatamente no lado oposto da rua – havia outra parada de ônibus, mas Torquato preferia caminhar agora que estava fresco a enfrentar o calor mais tarde no agitado trânsito do centro da cidade. Além do que, a lotação que costumava tomar parava a menos de 100 metros – “quase na porta” – do seu local de trabalho, compensando os 30 minutos que demorava a cumprir seu trajeto, quando aproveitava e lia a página policial e de esporte.
Tinha algumas manias que o acompanhavam anos a fio. O relógio, que usava no pulso direito, era como se fosse parte integrante de seu corpo, extensão do braço ou amuleto da sorte. Antes de sair de casa, observava, também, se a carteira de dinheiro estava no bolso traseiro direito da calça e, uma outra, com documentos e talão de cheques, além do lenço, no esquerdo. Apanhava o molho de chaves e, antes de enfiar no bolso direito do paletó, verificava se as do cofre, das gavetas da mesa, além da sobressalente da sala do chefe não estavam faltando. Conferia se o dinheiro para pagar o ônibus – ida e volta -, o jornal e o café era suficiente e ainda dava uma última olhada sobre a mesa de centro para ter certeza que não esqueceu nada. O gesto final era uma parada diante do espelho para arrumar o terno, a camisa, o nó da gravata e os cabelos. Quando chegava ao trabalho a operação desmonte era exatamente o oposto.
Esvaziava os bolsos, tirando as carteiras e o molho de chaves, deixando apenas o lenço. O paletó ficava pendurado num cabide atrás de um arquivo que há tempos não tinha mais uso, mas por falta de local para guarda-lo permanecia por lá. “Serve como guarda-roupa!”, exclamava sempre. Ao contrário dos colegas, não abria o jornal sobre a mesa e nem comentava as notícias do dia, principalmente às segundas feiras, quando os resultados do futebol do fim de semana acirravam as discussões matinais. Rapidamente o guardava, sempre na última gaveta do lado direito da mesa. Na verdade, Torquato não gostava de emprestar o jornal. Justificava que nem sempre devolviam todos os cadernos da edição ou então havia aqueles que rasgavam um pedaço das páginas de classificados.
- Quem quiser que compre – resmungava baixinho.
Se ainda pedissem, vá lá, mas a maioria era cara-de-pau. Iam desfolhando, distribuindo as páginas conforme os interesses de cada um. Compra de carro, aluguel de apartamento, troca de móveis, emprego. Havia até quem procurasse endereços de casas de massagem. Mas, o pior foi quando uma colega de repartição que ele havia indicado para ser admitida – o pai fora seu contemporâneo de regimento no Exército – durante varias semanas buscou um anúncio de venda, troca ou aluguel de vestido de noiva. Quando encontrou, pediu para ser dispensada do trabalho e foi verificar a vestimenta. Gostou e comprou por uma “ninharia”. Passados alguns meses, Torquato soube que ela havia se casado e ele foi o único que não recebeu convite. Que falta de consideração! Dela e do pai. Sua decepção foi tamanha que a partir daquele dia, ao entrar no prédio, ia logo esticando o braço ao porteiro, seu Olinto, um mulato sarará falante e educado, para presenteá-lo com o jornal.
- As últimas, seu Olinto, as últimas do dia! Anunciava antes de tomar o elevador.
Agora, pelo menos tinha com quem discutir as noticias do cotidiano.











