Washington Araújo, jornalista
Redescobri algo que me deixou atônito: sei escrever com caneta. Preocupado, sem tempo de pegar numa esferográfica a não ser para escrever recados, já não sabia o que era esboçar um texto sem que fosse no computador. De frente para o micro o dia inteiro e parte da noite, já escrevia até os bilhetes mais minúsculos pelo dito cujo.
De férias, com projetos paralelos a serem tocados (aqueles sonhos que acalentamos e vamos empurrando com a barriga), peguei numa caneta enquanto tomava meu café da manhã ao meio dia. Aliás, vou confessar uma coisa: nunca tive jeito com a caneta, a máquina de escrever e depois o computador só vieram substituir minha letra troncha de recém alfabetizado. Canhoto, gauche na vida, fui obrigado a escrever e comer com a mão direita desde criança. Meu pai achava que, com isso, eu faria todas as coisas de forma destra. Afinal, pensava, “a esquerda é coisa do demo”.
A decepção veio duplamente, pois só escrevo e como com a direita, fazendo o resto com a canhota. A outra exceção só se dá quando faço amor com a pessoa que mais gosto, eu mesmo (by Woody Allen). Ninguém levou minha direita diretamente ao órgão em questão para exercer . Como os mistérios desta vida são muitos, ela foi sozinha. A outra decepção é que até eu tinha a esperança de escrever melhor com a destra, pois pai sabe tudo ou acha que sabe.
Voltando à caneta, peguei nela, me reconciliando como se fizesse as pazes com uma antiga namorada, e fui escrevendo. Não é que as coisas foram se desenhando no papel. Vi que meus pensamentos, tortos ou direitos, fluíram da mesma forma como se estivesse teclando. Estranhei no começo a ausência do corretor de texto. Mas fiquei muito feliz, pois meus pobres textos agora podem ser escritos também sem o teclado. Eureka.
Não estranho mais como se escreveu a Bíblia, Os Lusíadas, A Divina Comédia, Crime e Castigo, Metamorfose, Dom Casmurro e Dom Quixote sem esferográfica, máquina de escrever ou computador. Pablo Neruda já disse: “escrever é fácil, você começa com maiúscula e termina com ponto final. No meio, você põe as idéias”. E eu, na minha santa ignorância, cego pela modernidade, esperando comprar um laptop de última geração para escrever minhas coisas, além das obrigações do trabalho.
Um amigo, recentemente, recebeu de presente da turma um caneta tinteiro. Emocionado, prometeu aprender a escrever com a mesma. Se eu ganhasse um estilógrafo (nome para caneta tinteiro que só vim a descobrir quando este amigo agradeceu o presente), acho que ficaria todo borrado. Destrambelhado que sou haja mata borrão para tirar toda a tinta do meu corpo. Se só agora voltei a escrever com a esferográfica, imagine eu às voltas com aquelas tintas nada laváveis?
Bem-vinda caneta esferográfica. Entendia que era mais cômodo ligar o computador, colocar minha senha, esperar ela ser aceita, entrar no Word para depois começar a escrever. Como os tempos modernos nos deixam emburrecidos…
Usarei, lógico, sempre que necessário o computador, mas com moderação. Tantas inspirações voam enquanto lamentamos a ausência de um teclado para escrever um texto?
Salve caneta, sem você como é que poderia iniciar uma carta assim: “escrevo estas mal traçadas linhas para lhe dizer que…”?















