Posts de Fevereiro, 2007

Salve, caneta!

Fevereiro 26, 2007

Washington Araújo, jornalista

Redescobri algo que me deixou atônito: sei escrever com caneta. Preocupado, sem tempo de pegar numa esferográfica a não ser para escrever recados, já não sabia o que era esboçar um texto sem que fosse no computador. De frente para o micro o dia inteiro e parte da noite, já escrevia até os bilhetes mais minúsculos pelo dito cujo.

De férias, com projetos paralelos a serem tocados (aqueles sonhos que acalentamos e vamos empurrando com a barriga), peguei numa caneta enquanto tomava meu café da manhã ao meio dia. Aliás, vou confessar uma coisa: nunca tive jeito com a caneta, a máquina de escrever e depois o computador só vieram substituir minha letra troncha de recém alfabetizado. Canhoto, gauche na vida, fui obrigado a escrever e comer com a mão direita desde criança. Meu pai achava que, com isso, eu faria todas as coisas de forma destra. Afinal, pensava, “a esquerda é coisa do demo”.

A decepção veio duplamente, pois só escrevo e como com a direita, fazendo o resto com a canhota. A outra exceção só se dá quando faço amor com a pessoa que mais gosto, eu mesmo (by Woody Allen). Ninguém levou minha direita diretamente ao órgão em questão para exercer . Como os mistérios desta vida são muitos, ela foi sozinha. A outra decepção é que até eu tinha a esperança de escrever melhor com a destra, pois pai sabe tudo ou acha que sabe.

Voltando à caneta, peguei nela, me reconciliando como se fizesse as pazes com uma antiga namorada, e fui escrevendo. Não é que as coisas foram se desenhando no papel. Vi que meus pensamentos, tortos ou direitos, fluíram da mesma forma como se estivesse teclando. Estranhei no começo a ausência do corretor de texto. Mas fiquei muito feliz, pois meus pobres textos agora podem ser escritos também sem o teclado. Eureka.

Não estranho mais como se escreveu a Bíblia, Os Lusíadas, A Divina Comédia, Crime e Castigo, Metamorfose, Dom Casmurro e Dom Quixote sem esferográfica, máquina de escrever ou computador. Pablo Neruda já disse: “escrever é fácil, você começa com maiúscula e termina com ponto final. No meio, você põe as idéias”. E eu, na minha santa ignorância, cego pela modernidade, esperando comprar um laptop de última geração para escrever minhas coisas, além das obrigações do trabalho.

Um amigo, recentemente, recebeu de presente da turma um caneta tinteiro. Emocionado, prometeu aprender a escrever com a mesma. Se eu ganhasse um estilógrafo (nome para caneta tinteiro que só vim a descobrir quando este amigo agradeceu o presente), acho que ficaria todo borrado. Destrambelhado que sou haja mata borrão para tirar toda a tinta do meu corpo. Se só agora voltei a escrever com a esferográfica, imagine eu às voltas com aquelas tintas nada laváveis?

Bem-vinda caneta esferográfica. Entendia que era mais cômodo ligar o computador, colocar minha senha, esperar ela ser aceita, entrar no Word para depois começar a escrever. Como os tempos modernos nos deixam emburrecidos…

Usarei, lógico, sempre que necessário o computador, mas com moderação. Tantas inspirações voam enquanto lamentamos a ausência de um teclado para escrever um texto?

Salve caneta, sem você como é que poderia iniciar uma carta assim: “escrevo estas mal traçadas linhas para lhe dizer que…”?

Ressaca também é cultura

Fevereiro 20, 2007

Luiz César Cabral de Menezes, publicitário e designer

pao de acucar

Viva o Carnaval! Noite boa, manhã dolorosa. Acordei com a cabeça doendo. Fui procurar água, sais minerais, glicose, o que me aliviasse. Foi quando encontrei este curioso artefato e descobri algo interessante! Neste recipiente o melaço de cana lentamente sorava, criando sólidos blocos que eram levados para a metrópole Portugal. Estas doces peças, de alto valor comercial, eram chamadas “pão de açúcar“. Aumenta a cultura, mas a ressaca permanece (hic!).

Na contra-mão do tempo

Fevereiro 17, 2007

Virginia Santos Oliveira, jornalista

Se me dessem a oportunidade de escolher um super poder: gostaria de trocar de lugar com o tempo. Por um dia ou por algumas horas que fosse, gostaria de poder inverter os papéis e ficar só de longe, me divertindo com a correria dele.

Não tem nada que me angustie mais do que essa sensação de que todos os relógios do mundo fazem tic-tac e eu preciso ir depressa. Acho que estou com síndrome de Alice. Hoje, por exemplo, senti que por todas as paredes, no ar, no chão, em cada canto que eu olhasse havia relógios que me diziam: o tempo está passando, o tempo está correndo! Você precisa ir!

Até pra descansar, a gente precisa correr. Correr pra tirar férias, pra viajar, sair direto do trabalho pra não perder um segundo da viagem, que é curta, porque não deu pra ficar mais tempo. Ufa! Quero andar na contra-mão do tempo.

Ah, se eu pudesse! Se me desse uma única chance, sentaria no banco da primeira praça que eu encontrasse e ficaria lá por horas. Em estado de slow total.

Sinal de liberdade

Fevereiro 16, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

Novamente, estou apta a conduzir automóveis nas vias, rodovias, menos nas aerovias. Sou uma motorista profissional, atualizada quanto à regulamentação de trânsito, direitos e deveres dos motoristas, primeiros socorros e sinais. Assisti presencialmente 15 horas de aulas teóricas.

Sofri muito, pois o ar condicionado da sala estava sempre muito frio, nos primeiros dias não sabia como aquecer os pés dentro de cavadas sandálias e como cobrir o colo com o avantajado decote, o que estava adequado à temperatura de 36graus da rua. Foram os primeiros passos para eu ser previdente, levei casacos e pisantes fechados. Mesmo assim, não contive alguns espirros. Que horror, sinal de resfriado.

O instrutor era bastante severo, voz alta, grossa e possessiva. Uma delícia. Cheio de charme. Os alunos em sua grande parte maiores da terceira idade ficavam na espreita do mestre. Ele mantinha atitudes firmes e seguras para contrapor sua jovem aparência de guri rebelde. Até uma lagartixa estava tatuada em sua perna esquerda. Sinal de irreverência.

Acabei amando as aulas, no início fiquei aturdida com a tamanha ignorância que demonstrávamos em nossas respostas. Depois, entendi que na direção de um veículo, com o passar do tempo, atuamos de maneira quase instintiva aos sinais.

Meu maior prazer, foi ao terminar a última aula o professor me perguntou se eu havia entendido tudo. Disse que sim, até mais do que eu imaginava precisar saber. Por exemplo, falei a ele que antes eu não sabia da diferenciação entre uma marcação amarela e uma marcação branca no centro da pista, e que agora eu sei. Ele perguntou, e qual é, respondi feliz: a cor.

Outra grande pista foi saber a diferença diante de uma marcação zebrada e uma não zebrada. Convicta, respondi: a primeira diz que se eu continuar vai dar zebra, a outra pode dar outro bode qualquer. Ele baixou a cabeça entre as mãos. Agradeci e saí diante de tamanha reverência. Sinal de que aprendi tudo.

Bem, vou terminar aqui para levar umas crianças para passear de carro pela cidade. Sinal de perigo!

Um olho no peixe…

Fevereiro 14, 2007

Washington Araújo, jornalista

gato

Eu e ela

Fevereiro 9, 2007

uoston

Washington Araújo, jornalista

Já estava com outra, mas olhei para ela e não resisti. Antes balancei, pois sabia que todo mundo ia olhar para ela. Eu ficaria meio envergonhado, mas envaidecido também, confesso. Ela, tão bonita, tão elegante, altiva… Eu, tímido, nada bonito e um pouco altivo.   Encarei e saímos pelas ruas e praças, juntos, agarrados. Passei por um, por outro, por mais um e não deu outra. Todo mundo olhou para ela.Alguns vinham me perguntar sobre ela. Acredita? Respondia, orgulhoso. E assim passeamos, paramos nos botecos, fomos ao banco…  Foi um dia glorioso. Dia de glória à altura do clube que aquela camisa representa. Ainda mais com um autógrafo que dizia assim: “Do amigo Pelé”.  Obrigado, Daniela.

Cinéfila eu?

Fevereiro 9, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

Nunca fui cinéfila e acho difícil que venha ser. Criada num ambiente confortável e protegido, me voltei a ser uma livrófila. Hoje, percebo que perto do que meu filho se tornou, eu não fui, é nada. Aliás, nadar era o que eu mais gostava de fazer, até nos sonhos. Com isso, criei uma verdade própria, de que os seres vivos surgiram da água, e na evolução da espécie foram se tornando terrestres e depois de bem evoluídos se tornam aves voadoras. Sobre ciências sonhadoras, quem melhor fala é o Galileu, pois aqui só estou voando.

De volta à terra, afirmo ser uma expectadora e admiradora da arte do cinema. Assisto aos filmes, atenta ao que posso aprender. Vejo os criadores, os produtores e os intérpretes, seres dignos de encantamento. Usando, abusando e se superando nas técnicas e signos de comunicação visual e auditiva. Acrescido de campanhas publicitárias persuasivamente vanguardas e entusiásticas.

O cinema para mim é uma arte, como a música, os textos, a dança, a arquitetura e as artes plásticas, dentre as tantas mais existentes, como a culinária e a perfumaria. E como arte, meus únicos comentários são: entendi ou não entendi. Ou melhor, acompanhei ou viajei. Recuso-me a mudar um sinal, qualquer. Arte corre na veia, e cada um tem a sua composição “articular”.

Sou livre para criar a minha e responsável para respeitar a dos outros.

E é bem isso, quando assisto a um filme mais de uma vez, sempre o percebo diferente. Projetando mais conteúdo de cada vez. Cinema é uma roda da vida, tem muita coisa girando em torno. O contexto político, o econômico, o emocional, o ambiente, a companhia, o clima, o espiritual, o alimentar, somados aos mais subliminares e quem sabe os inconscientes, tanto universais como particulares. Tipo assim, ver maremoto, depois de ter comido uma feijoada na casa do Zé, que vive brigando com a filhinha que faz xixi nas calças e senta molhada em seu colo, onde um ventilador não dá conta do calor de 35 graus, no domingo após a derrota do Inter. Convenhamos, não terei uma percepção intelectualizada desta peça artística.

Por ora, lembrei de quando eu era aprendiz de adolescência, matei a aula com uma amiga e fomos assistir o Exorcista. Como eu tinha medo, cada vez que o malígno se aproximava eu fechava os olhos e ficava ouvindo os sons. Interessante. Eu me esforçava para desassociar a cena ao som. Ouvia ronco de porcos, batidas em metal, gritinhos, etc. Até hoje, nunca vi o filme com os olhos abertos. Ainda não estou preparada. Meus filhos é que me descrevem as cenas. Ah, e quando estava grávida de meu primeiro filho, foi o grande lançamento do ET. Fiquei atrás da cortina na entrada da sala de cinema, alegando falta de ar. Era puro medo de sonhar de noite que meu filho fosse nascer com a aparência do ET. Não sei não, se os dedinhos compridos que ele têm não foram influência.

Como leiga, posso falar da inspiração que as obras me traduzem. Em vários de meus textos já manifestei isso. Não me coloco como analista, mas sim como surfista no contexto cenográfico, me entrego às ondas textuais, faço vacas e jacarés nas profundezas interpretativas. Ainda estou “zoando” os 14 filmes que vi no último feriado.

Cinema é pura arte. A beleza ou não de cada peça, está nos olhos de quem as admira.

Um Bloco de Segunda com estilo

Fevereiro 7, 2007

Lidia Pena
jornalista

Se o assunto é carnaval e blocos de rua, impossível não falar no Bloco de Segunda, que acaba de escolher o samba/2007 com o enredo: “É de segunda, mas é nosso”. Rio de Segunda é o nome do vencedor, que dentro da característica maior do Bloco, a irreverência, em determinado momento diz assim: É nosso esse Bloco de Segunda/ Segundo turno, São Paulo não!/Comprei um caveirão/ Que é de segunda mão/ E agora estou vendendo proteção…

Nosso bloco sai há 20 anos pelas ruas de Botafogo, sempre concentrando na Cobal/Humaitá e tem uma origem engraçada. Tudo começou quando um animado grupo de militantes da esquerda, morador do bairro, porém freqüentador da praia de Ipanema, de saco cheio da política vigente à época, resolveu organizar um desfile de carnaval para esculhambar a dita cuja em pleno 7 de setembro. E assim, no dia da Independência, em 1987, aconteceu o primeiro desfile do Bloco, ainda sem nome, com um samba divertidíssimo, que entre outras pérolas perguntava “por que não trocar o Sarney por D. Pedro I ?” O sucesso foi tanto, que, cobertos de glória, resolvemos sair também no carnaval de 1988 e passamos a fazer dois desfiles por ano.

Aí resolvemos ocupar a segunda-feira de Momo, já que o sábado era do Barbas, o domingo do Simpatia e o Suvaco só saía, como até hoje, antes do carnaval. Assim foi batizado o De Segunda, com a malícia do duplo sentido que sempre deu margem a deliciosas sacanagens…
Depois, plano econômico vem, plano econômico vai, a grana ficou curta e optamos por desfilar somente no carná. O símbolo do De Segunda é uma bela arara e as camisetas, modéstia à parte, são lindíssimas, sempre assinadas pelo nosso designer exclusivo, o Betuca, que já fez uns dois pit stop no Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, mas continua firme, forte e criativo, graças a Deus e aos orixás!

Ao longo de todos esses anos, tivemos sambas antológicos e desfiles sensacionais, alguns debaixo de muita água e um, peculiar, no qual o carro de som pifou e a galera levou o samba na garganta até o fim do desfile sem parar, atrás da bateria espetacular de mestre Felipão, a mesma da escola de samba da comunidade do Morro Santa Marta, que também fica em Botafogo. Com tantas qualidades, modéstia à parte, o bloco só fez crescer e há alguns anos juntamos quase 5 mil pessoas, e também começamos a viver o sufoco que hoje, infelizmente, atormenta os badalados blocos da zona sul do Rio e não sabemos como evitar.
Mas, como este ano pode não ser igual àquele que passou, todos lá na Cobal do Humaitá, no dia 19 de fevereiro, para cantar o sensual refrão: Tua sede me água/Não esconde teu calor/Incendeia o meu Bloco/Bota fogo meu amor.

Mente quieta Coração tranqüilo

Fevereiro 7, 2007

Rosana Rossi C. Romero, jornalista

Noooooooooosssa! O que está acontecendo neste planeta que faz acelerar o tempo, tornando os dias tão velozes e as batidas do coração tão rápidas?

Nesta cidade o ritmo do tempo tem deixado os relógios enlouquecidos. Ou será que essa sensação é geral?
Já passou mais um dia, um mês, um ano? Parece que estamos todos numa esteira de academia, corre-corre, olha o prazo, não vai dar tempo! É fast food, fast drive, fast bank… Sempre atrasados, ofegantes, estressados… mas …a necessidade da alma humana é “slow” e a corrida maluca faz mal para a saúde física, mental e emocional.

Para os yogues, uma respiração ofegante indica coração acelerado e mente inquieta. Maus sinais para o equilíbrio orgânico e psíquico! A respiração suave e consciente traz calma ao coração, torna a mente lúcida, tranqüila, perceptiva. Reduz a inquietação, o excesso de pensamentos conflitantes, o nível de angústia. Aumenta o prazer e a alegria de viver.

Neurocientistas dizem que determinadas regiões da anatomia cerebral funcionam como antenas que captam as vibrações de Deus.
E a respiração pode ser um instrumento poderoso para tornar essas antenas mais receptivas. Aliás, no yoga uma das chaves para a sintonia com a força que governa toda a natureza é justamente o ato de inspirar e expirar, o pranayama, que controla a energia vital. Tão simples, não é? Sim, se nossa mente cartesiana não vivesse constantemente ligada no “piloto automático”, analisando e julgando, muito mais do que sentindo e percebendo.

“Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo”…

O poeta tinha razão. Já que o estresse é uma das maiores causas de doenças neste planeta acelerado, o melhor é relaxar. A correria desenfreada só nos distancia da paz, da fonte criadora, da intuição, dos sinais sutis que nos guiam para caminhos mais criativos e saudáveis. Vamos então respirar! Quanto mais consciente for o ato de respirar, tanto maior será nossa presença neste mundo, expandindo assim a intuição e a percepção, instrumentos fundamentais para um desempenho inteligente e sensível neste grande teatro cósmico.

Faça o teste: sempre que estiver acelerado pare por uns segundos e respire de forma consciente. Preste atenção na inspiração e na expiração. Faça como as crianças e os bichos, respire num suave movimento do diafragma. Assim você acalma o coração, nem que seja por uma fração daquele tempo “fast”, antes que a próxima avalanche de pensamentos e inquietações tome conta do seu ser.

Lídia e sua real grandeza

Fevereiro 5, 2007

lidia

 Domingão de sol, céu azul, Posto 9 lotado, blocos na rua do Rio de Janeiro, aniversário da Lídia (04/02). A moça, toda espevitada, comemorou na Lagoa, num quiosque bem transado. Como resolveu bebemorar numa noite de domingo, eu, depauperado, declinei. Mas tive a sorte de encontrá-la na praia e tascar-lhe  um beijão de feliz aniversário. De acordo com o que levantei o nome dela vem do grego e significa mulher de Lídia, uma região da Ásia Menor. “Sua bondade e seu comportamento recatado nem sempre são bem interpretados pelos outros. Muitos chegam a confundir timidez com orgulho”, diz o significado do seu nome.  Ah, descobri também que ela “consegue sempre que o seu companheiro ceda e lhe dê razão.”. Danada esta Lídia, não pessoal? Pois é, esta é a Lídia que tem um coração de real grandeza, que enfurna sua timidez, mostrando-se uma amiga legal, sempre disposta a colaborar. Lídia, acho que é o seu primeiro aniversário na Turma dos Fundos, mas saiba que já aprendemos a admirá-la a fundo.