Circe Brasil
comunicóloga
O frio é invenção para os ricos. Frio é que nem o petróleo, coisa da natureza explorada, para explorar. Uns povos têm mais que outros e os que têm cobram caro pelo uso.
Viver o frio sem um ardente ar-condicionado, sem um estufante casaco de visom, sem botas forradas e de cálices vazios, não é viver, e sim sobreviver ao frio, ou morrer de frio.
O frio pede lareira, bebida quente, forno potente, comida escaldante, luz abundante e quando não se tem alguém aconchegante, vale um livro arrepiante. O gelo tenciona, oprime, aprisiona e da calafrios. E a farmácia, nossa, essa é enervante.
O frio foi criado para quem tem crédito com o Papai Noel, quem possui confortadores abrigos, generosos amigos e fartas contas bancárias. Pelado não se cria no frio. Umas luvas de pelica são os olhos da cara, um cashmere é inviável e água quente nas torneiras é só para quem tem gás nos canos.
O frio entorpece, desfalece e enfraquece. É anticorpo, as maças do rosto racham, a barriga da perna fica com câimbra, o peito do pé murcha e as meninas dos olhos lacrimejam. A boca cerra e os dedinhos encolhem. E não há letrinha que aqueça a sopa sem um bom cobertor de orelhas ou pé de porco.
Cadê os ursos e onças pintadas para aquecer as nossas costas e os coelhinhos nossos pés, cadê? Os cuscos choramingando só nos deixam de cabeça quente. E os bem-te-vi que não cantam mais por aqui, congelaram? Pobre viver frio é antever a morte sem lápide.
Brhummm, o fobre no prio é rico em falta de ar e muito espirro, Atchim…tô quentinha nas têmporas, vou procurar uns jornais e um foguinho no cantinho na ponte.















