Cenas urbanas. Tomo café todos os dias numa confeitaria perto de minha casa. Já se tornou rotina há quase cinco anos. É o momento para ler um pouco, olhar o cenário em volta no bairro do Flamengo, ver pessoas no caminhar lento de quem curte a paisagem e rápido de quem vai para o trabalho. Foi neste local que li ontem uma crônica de Clarice Lispector, escrita no início da década de 70. Nela, a mulher que escrevia com a alma, contava que estava numa confeitaria quando chegou um garotinho esfarrapado e pediu: “moça me dá um doce”. Monossilábica, tirada do mundo dos pensamentos onde estava, só perguntou qual o doce e pagou. Ficou constrangida com a cena e com o seu automatismo, se perguntando se ficara constrangida em ver uma criança naquelas condições ou se estava envergonhada por tentar resolver toda a miséria do mundo pagando um doce para uma criança pobre.
Hoje, na mesma confeitaria, nem abri o livro quando ouvi: “Moço, me dá um pedaço de bolo”. Não era uma criança esfarrapada, mas com roupa suja, com cerca de oito anos de idade.
Eu, que como um pão de queijo, uma média e suco de mamão com laranja rotineiramente, afirmei, depois de alguns segundos absorto, que só pagava um pão de queijo. O menino olhou para baixo e se voltou para mim, resignado: “Tá bom”. Repentinamente, retrocedi e falei que ele poderia escolher o pedaço de bolo. O olhar foi outro, brilhante, acompanhado de um belo sorriso: “Obrigado moço”. Quem sou para me comparar a Clarice Lispector, mas só lembrei que entre o doce dela e o meu bolo passaram-se mais de trinta anos.
Washington Araújo, jornalista
É incrível mesmo, Washington, os anos passam, mas determinadas (e tristes) realidades não se alteram. Também vivo situações semelhantes volta e meia. Perto do Natal, naquela semana de muita chuva, entrei numa loja de doces e biscoitos aqui na Voluntários da Pátria, perto da minha casa, e já estava na caixa quando um menino magrinho, talvez com uns 10 anos, chegou com um pacote fechado de paçocas e com um sorriso irresistível me pediu: moça dá para comprar pra eu vender no sinal?
Comovida, imediatamente disse que sim e lhe desejei boa sorte, um tanto angustiada por só me restar lhe dizer aquilo naquele momento. Assim que ele saiu, a moça da caixa abriu um largo sorriso e me disse, Deus lhe abençoe, esse menino é do bem, está sempre aqui tentando conseguir as paçocas para vender, mas nem sempre é bem sucedido. Saí com uma imensa vontade de chorar e o sorriso cativante daquele menino franzino tilintando na minha memória.
Lidia Pena, jornalista
Leio estórias emocionadas de ações de doações a pessoas carentes, neste período de festas. Não lembro de nada que possa contar por sempre ficar muito indignada pela forma alheia com que nos mantemos, diante de tantas desigualdades. O que fazer para mudar? Como erradicar a hipocrisia? Como evitar as lágrimas nos olhos perante cenas de descaso e oportunismos. Não queria mais lagrimejar por isso. Quero muito viver para chorar intensamente de alegria, no dia em que eu andar pelas ruas e não encontrar pessoas pedindo o que comer, pedindo dinheiro ou agasalho. Ou até, oferecendo coisas por qualquer coisa.
Quero chorar por não ver alguém sendo mal tratado ou agredido por ser julgado marginal, invasor ou doentiamente mal. Quero chorar por sentir que as pessoas se olham com respeito e se tratam por igual. Quero me derramar em lágrimas por sentir que tudo que temos e tudo o que sabemos pode ser compartilhado com dignidade por seres humanos, humanos e confiáveis. Quero soluçar por me sentir uma parte de todas as criaturas viventes e de todo sistema consciente de que o ar, a água, o sol e o solo não pertencem a ninguém e são harmoniosamente receptivos a todos.
É possível, eu acredito. É possível, eu sinto, é possível e hoje eu choro por tentar. Sofro por não desistir, sou punida por não aceitar e padeço por crer que é possível e por ora sentir-me só. É uma solidão metafórica, pela vastidão deste mundo. Mas teimo, que é possível viver com qualidade compartilhada sem ter que conviver com a competição medíocre, egoísta, narcisista e ambiciosa dos seres selvagens que ainda somos. Quero, ainda, chorar muito de alegria de ser gente e estar em torno de todos, gente.
“Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração. ‘
Carlos D Andrade (contribuição de Washington Araújo)
Circe Brasil, comunicóloga