Reclamo, logo falo

By lcabral

Freud foi mesmo um gênio. Mas por que essa súbita descoberta, se minha admiração pela a psicanálise vem de muito tempo? Simples. A cada observação do cotidiano humano dá para perceber que a teoria do professor, construída há mais de cem anos, continua mais atual do que nunca.

Outro dia estava, pacientemente, esperando a hora de pegar meu filho João Pedro na escola quando uma pequena algazarra me distraiu da leitura do livro do Ricardo Kotscho “Uma vida simples e feliz”, que fala de reduzir expectativas consumistas e ter disponibilidade para aproveitar bem a vida. Como, por exemplo, buscando os filhos após a aula, o que eu estava exatamente fazendo naquele momento, após algumas providências para reativar meu consultório de psicologia.

Passei a observar uma meia dúzia de mães conversando freneticamente no banco logo à minha frente e não pude deixar de notar que na pauta estavam as suas empregadas domésticas (prato predileto delas, sem trocadilho), seus maridos (outra preferência) e tudo mais que merecesse ou não alguma espinafração. Incrível como tudo o que caía na roda era motivo de comentários em que não sobravam pedra sobre pedra, mas feitos com a candura de Madre Teresa de Calcutá.

Não deu pra não pensar nos escritos do dr. Freud sobre a “inveja do pênis” (falo, poder) por parte das mulheres e os mecanismos compensatórios desenvolvidos por elas para lidar com a angústia frente à diferença anatômica entre os sexos. Há todo um simbolismo psíquico construído a partir disso, mas não há dúvida de que, na linguagem do inconsciente feminino, a falta do falo certamente deu lugar a outro “falo” (ou reclamo).

A angústia dos companheiros do gênero masculino frente às reclamações femininas é justificada, pois como elas vivem infernizando suas vidas com incessantes demandas de tudo, sempre apontando uma falta aqui, outra ali, o nível de ansiedade vai à estratosfera, porque a última coisa com que os homens querem se defrontar é com falhas, se bons obsessivos forem.

E, por incrível que possa parecer, é exatamente esse jogo inconsciente que garante o sucesso de muitas relações pois, como um par perfeito, elas são mestres em apontar faltas (para não ver a própria) enquanto eles são especialistas em atender pedidos e tapar buracos, também para não ver suas faltas. Que mulher precisa de pênis, se pode substituí-lo e gozar com uma reclamaçãozinha aqui, outra ali, até para conseguir o citado penduricalho masculino no simbólico e mesmo no real da coisa? Quer maior poder que isso? E, ao final, na maioria dos casos, todos saem felizes e satisfeitos, por mais que digam o contrário.

Por Wilson Renato Pereira – jornalista e psicanalista

5 Respostas para “Reclamo, logo falo”

  1. washington Disse:

    Caro Uilsim,

    Deixa que eu falo
    vejo se não me entalo
    sem desanimá-lo
    mas você pisa em calo

    sinta o cheiro do ralo
    vão desacatá-lo
    feitas Frida Kahlo
    sobre a tal falta de falo

    Vamos publicá-lo
    mas entre no embalo
    pois num estalo
    vão acabá-lo

  2. René Disse:

    Renatinho: você tranquilo aí em Brumadinho – este recanto do mundo que mais parece um pedaço do céu – e vai justamente escrever sobre um assunto tempestuoso. Nosso poeta Ostim tem razões de sobra, pois “num estalo, [podem] acabá-lo”.

  3. washington Disse:

    É o que eu falo.

  4. wilson renato Disse:

    amigos,
    não tem como escapar de confusão quando se trata da psicanálise. já o doutor freud, lá pelos idos do final do século XIX tinha contra ele a esmagadora maioria da classe médica européia, que não admitia, por exemplo, que as crianças pudessem ter sexualidade. candidamente, respondeu o doutor: “se não têm, porque a sociedade as reprime?”. é só apalpar seus próprios órgãos genitais que os adultos entram em polvorosa e cortam o barato dos baixinhos, como se tesão fosse coisa só de gente grande. tratando-se de inconsciente, tudo é tempestuoso e nossa formação profissional nos permite “segurar firme nos arreio”. aguardem, que a a próxima crônica será sobre os homens, autoditos todo poderosos que, apesar do penduricalho fálico explícito, dançam e dançam na mão da mulherada.
    wr.

  5. Circe Disse:

    Homens e mulheres, mulheres e homens, esta é a minha fala predileta. Dr. Renato, gostaria de sua análise sobre o amor por bolas que os homens carregam.

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