Coisas acontecem na vida da gente e quando relatamos ninguém acredita. Até Deus duvida. Ou é Ele quem esta se divertindo nos bastidores?
Houve um período de minha vida em que me deparei com sentimentos de muita solidão. Tinha um bom emprego, filhos crescidos, contas pagas e um lar vazio nos fins de semana que meus pimpolhos ficavam na companhia do Pai. E num destes, ao final do dia da sexta-feira, o coração me comprimia ao lembrar que chegaria em casa com as frutas, o pão e não teria com quem compartilhar, ou ouvir as queixas de quem estava cheio de vida, ilusões e entusiasmo em realizar.
Naquela tarde, porém, resolvi fazer diferente, por impulso, decidi acompanhar um Grupo de meditação que iria para um sítio passar os dois próximos dias em busca do nirvana, com as mentalizações e ações de bioenergética do mestre OSHO.
Olhei o relógio digital do supermicro que eu trabalhava e os números apontavam quase dezenove horas, peguei no telefone disquei…disquei nada, apertei as teclas do Templo e perguntei que horas seria a partida do Grupo para o sítio. Entrei em disparada quando me informaram que partiriam às 20h. Desliguei e fechei tudo normalmente, conforme sempre fazia ao término do expediente e voei os 15km para casa no meu Kasinho, peguei o básico para higiene pessoal, sem olhar para as camas por arrumar, a louça para lavar e outras atividades que fazia normalmente ao chegar em casa, parti.
Cheguei a tempo da divisão de pessoas por carro e saímos em comboio por um trajeto que nunca d’antes percorri. Aliás, nunca também tinha feito qualquer atividade semelhante ou freqüentado tal exercício Osholar. Buscava somente uma ocupação interessante, ao encontro do “eu” em favor dos “nós”, ou na solução de desfazer os nós do eu. Doeu. Mas alguém havia falado que era interessante e acreditei.
Até aí nada de extraordinário. O sítio era simples, porém rico em natureza e isolamento. A comida, logo servida, era natureba e fresquinha. As pessoas se comportavam como em um acampamento escolar, seguiam as regras, ouviam atentamente, limpavam o que sujavam e arrumavam o que estava para consertar. O toque de recolher, veio depois das apresentações pessoais e da proposta de atividades para o dia seguinte. Às cinco horas da matina deveríamos acordar e correr para o beiral do rio, tomar um litro de água morna, sem respirar e depois você já pode imaginar…blergs
O dia foi repleto de exercícios doutrinários de esgotamento físico e emocional, o desempenho físico, a tolerância, a subserviência, os desapegos pelo conforto e a disciplina de horários, foram testados. Lágrimas, risos, gritos, iras, afeto, paciência, controle, atenção etc e etc foram provados. Resumindo, ninguém esta feliz com tudo que tem e sempre há algo para fazer-nos ansiosos e reclamões. Sou normal.
Sendo que…tento ligar do celular para saber como os meus filhos estavam, não consigo e sou avisada que na região não tem sinal devido as montanhas. A única forma seria usar o telefone da secretaria que naquele horário estava fechada. Pensei, amanhã eu tento. O amanhã chegou tão cedo como no dia anterior e a secretaria não abre aos domingos. Tudo bem, eles estão sendo cuidados pelo Pai, como sempre foi feito em doze anos. Normal. Mas fico ansiosa e mergulho nas intensas atividades em meditações para reparar a solidão e o sentimento de que ninguém precisa de mim e tanto faz existir. Estou só, sou só e não me sinto importante a qualquer pessoa. Chorei, chorei muito a minha desolação existencial. Gritei muito pedindo um sinal de que me fizesse acender a chama da vontade, da energia do entusiasmo. Oh Deus, por que nasci?
(continuação nos próximos dias)
Circe Brasil
comunicóloga