Arquivo da categoria ‘Circe du Soleil’

Ventar

Outubro 1, 2008

Acolhida nos braços do vento aqueço-me,
transponho-me, em pensamentos.
Vago na imagem do ser impossível
Flutuo na serra, no mar, no infinito.
Espaço não falta, não passa, não volta.
A brisa no entorno conduz-me
como em sonho, em estradas no nada,
no tudo, no eterno,
no inferno da vida vazia de não ter pra onde ir, de ficar, de sorrir.
Na força do vento cresço, enalteço e vôo, vôo,
Vou cobrindo o espaço
Com a poeira do amor, da coragem, do querer,
do ceder a vontade de tudo poder,
transcender.
Desejo deixar tudo aflorar
Não pensar, não parar, não reter
Na infame vergonha, na dor medonha
Que o tempo emplacou
E o vento suave, o vento turrão, o vento trovão,
Levou.
Dispersa em voar
A descobertar
Preencho meu corpo com o som de sua voz
Desenhada no ar
Plainando na mente de uma insana vertente
De uma imensa corrente por todo, todo, percorrer
Cubro-me em seus olhos, com rubor, com despudor,
os delírios de meu amor.

Circe Brasil
comunicóloga

Beber ou não beber

Julho 11, 2008

Há muito eles não se viam. Ela, por mais que fizesse não conseguia esquecê-lo, ou deixar de amá-lo. Querer ou não querer, como fazer para esquecer? E, olha que ele fazia muito para ser ignorado por tipos apaixonados como ela, mas seu ego a chamava. Os semelhantes se atraem.

O encontro foi marcado para os premeditados chopinhos. Alegria geral, ele adorava chope e ela, ele. No entanto havia um porém: se beber não dirija. Então, como é que fica? Quem vai de carro? Combinaram de se encontrar no local, aonde cada um iria de táxi. O local deveria ser próximo, a fim de evitar perda de tempo e gastos desnecessários. Assim aconteceu.

Ao chegar, ela viu-o sentado a sua espera com um copo já bebido. A emoção do reencontro pediu um brinde, dois, vários. Ele, encantador como sempre, e ela, bastante nervosa.

Com a desculpa do frio, mais dois copos foram pedidos. A emoção comandava a situação. As lembranças, as vivências e os sonhos desfeitos eram os temas da conversa, que durou muitas horas, regada a chope. A pizza, coitada, foi para caixa de “vou levá-la”. Afinal, consciência ecológica e social também faze parte do desenvolvimento humano preservatório.

Sem vergonha de serem educados. A companhia estava muito agradável. A saideira havia sido bebida umas duas ou três vezes, as toalhas das outras mesas já haviam sido recolhidas, as janelas fechadas e o aquecedor do ambiente desligado. Estava na hora de irem embora antes que o garçom pedisse. Secados os copos, partiram.

Ela estava aflita com o momento de qual resposta deveria dar na hipótese dele perguntar se o acompanharia no mesmo táxi, ou se cada um iria partir em carros separados. Não houve a pergunta, só havia um táxi na proximidade e a chuva iniciara. Para ele, era lógico entrarem no carro juntos e fazer a pergunta esperada logo após.

Que situação desagradável, incluir um estranho num momento de íntimas decisões. Ir ou não ir? Ficar ou não ficar? Combinar ali, diante do motorista do táxi, o destino a seguir. Perfeito constrangimento, aparente frieza e a leveza dos ébrios.

Princípios da convivência social. Os anseios contemporâneos são pré-históricos. Hoje, graças à tolerância zero de dirigir alcoolizado, as vidas de nossos protagonistas foram preservadas, o motorista do táxi ganhou também história hilária para contar.

A ressaca foi mantida, além de tudo mais. Se antes era conflitante, agora é delito. Beber ou não beber, querer ou não querer, ir ou não ir, ser ou não ser? Eis a razão, por mais que queiram mudar os costumes, a essência humana continuará a mesma. Por favor, um café forte e bem quente para ter que engolir mais esta!

Circe Brasil
comunicóloga

A felicidade e o perigo de estar viva

Maio 9, 2008

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Amigos, como é bom voltar para casa e receber o abraço dos filhos, o xingamento dos irmãos e ler as suas mensagens, depois de ser assaltada e de me sentir impotente e mais velha.

Agora à noite fui visitar meus pais e combinar nosso encontro para logo mais comemorarmos meu aniversário. Sai da casa dos meus pais às 21h55min e ao entrar no carro fui abordada por dois elementos, um com uma faca em minha direção gritando que ia me matar e que era para eu dar a bolsa, enquanto o outro me dava um soco na cara e dobrava o retovisor de fora, alcancei a bolsa e arranquei o carro. Como não via atrás toquei direto com risco de bater. Procurei uma viatura de polícia e fiz a queixa. Acompanhei a ronda por um tempo com os policiais, e depois eles me deixaram no plantão para fazer o registro.

Neste meio tempo, uma mulher ligou para a minha casa e disse ao meu filho que havia encontrado minha bolsa na rua. Meu celular ficou com os ladrões e eu patrulhando com a polícia, por isso não fiz contato com ninguém da família. Uns quarenta minutos após, ao chegar no posto policial liguei para casa. Meu filho estava desesperado e não levou 10 minutos toda a minha família estava na delegacia cantando junto com os brigadianos os parabéns para mim. Afinal, era meia noite e mais uma vez a vida comprovou que o perigo é estar vivo. Por isso, comemorar é preciso.

É uma lástima não poder receber as ligações de cumprimento, mas quero dizer para cada um, o quanto são importantes para mim, principalmente nesta sobrevida.

Beijos,
Circe Brasil
comunicóloga

Circe, vc de fato é uma guerreira….o nosso poeta e repentista Ostim mais uma vez foi perfeito e disse tudo….Com vc não tem “essa de bola dividida (…) olha e vai pra cima, decidida”…. Se a vida bate, vc dá o troco… mas sempre com um sorriso….

“Quem nos dera ter o seu dom..
De sorrir, mesmo quando nada está bom”

Menina, continue assim…Não sei se já escrevi isso pra vcs, mas há muitos
anos aqui no Paraná teve uma campanha publicitária que dizia “você será
tudo aquilo que for capaz de crer, ousar e criar. Vá em frente”. Você chega
lá!

Beijos,

René Ruschel

Circe querida
Que bom te saber viva! Já passei 2 vezes por situações como essas e, ainda que menos intensas, graças a Deus, bastante assustadoras. Imagino todo o seu sentimento. Mas o que interessa é que você sobreviveu e pode comemorar este aniversário e todos os outros que virão. Parabéns, muitas alegrias, amor e paz! E que a sua vida, como aconselhou sabiamente mestre Gonzaguinha, “seja sempre desejada por mais que esteja errada…”
bjs

Lidia Pena

Guerreira de coração, alma de criança

Ela se equilibra na vida
Às vezes a bola vem dividida
Mas não se faz desentendida
Olha pra cima, parte decidida

Mãe com jeito de adolescente
Brinca com os filhos irmanamente
Vive com eles contente
Às vezes dura, mas ternamente

Esta menina moça de corpo e coração
Tropeça, mas não diz sim ao não
Põe sentimentos na própria mão
E escreve lindo, mesmo de supetão

Quem nos dera ter o seu dom
De sorrir, mesmo quando nada está bom
De escrever tudo de bom tom
De amar em off ou em on

Circe é o seu nome de certidão
Nome de fada, de varinha de condão
Vai aqui Circe, de seus amigos de comissão
Um pouco de nosso coração

Ana Miria, Gerson Leal, Karla Maia Soares,
Laura Jane, Lídia Pena, Loreta.Pinheiro,
Luciana Salles, René Ruschel, Rita Pimenta,
Rosa de Fátima, Rosana Romero, Virginia Oliveira,
Washington Araújo, Wellington Silva,Wilson Renato.

Se contar ninguém acredita (continuação)

Abril 6, 2008

Comprovadamente acontecem coisas na vida da gente e quando relatamos ninguém acredita. Até Deus duvida.

Alô, sou eu
Onde tu tá ?
Na casa do pai e da mãe.
Tu ta bem?
Sim.
E o carro?
Esta lá embaixo.
Na rua?
Sim.
Guarda ele na garagem, AGORA! Depois falamos.

Ao entardecer do domingo voltei à cidade e resolvi passar na casa de meus pais, pois há muito não os via e deveriam ter chegado de viagem. Ao abrir a porta minha mãe me abraçou forte e disse comovida “ Graças a Deus você está bem. Ligue para seu irmão ele perguntou por ti”. Foi quando tive a conversa acima.

Depois de guardar o carro na garagem, peguei o celular que estava sem bateria e coloquei a carregar. Foi quando percebi a quantidade de ligações perdidas e a caixa postal lotada. Números variados e repetidos, em todas as horas. Minhas pernas tremiam a cada recado desesperado contido na caixa: Onde você está? Liga pra mim. Pelo amor de Deus se comunique. Não sabemos o que aconteceu. Que droga, liga pra gente. Onde você se meteu. As crianças estão em pânico. Dá notícias. Oi, eu de novo. Assim que chegar liga… e assim por diante. Uau. O que teria acontecido?

Liguei para as crianças que choraram no telefone. E fui dando retorno a cada um que me ligou e sempre era uma expressão de alívio, agradecimento divino e um xingamento injusto. O meu abalo estava sendo tão grande quanto o das pessoas que passaram todo o final de semana me procurando e investigando onde eu poderia estar.

Aconteceu que a minha filha decidiu, também por impulso, afinal é sangue do meu sangue, a não ir para a casa do Pai na sexta-feira. Ao chegar em nossa casa não me encontrou, viu o lugar em desalinho e ligou para meu celular e dava fora de área. Ligou várias vezes, como eu não dei retorno e era tarde ligou para meus irmãos para saber se eu estava na casa de um deles. Ninguém sabia. Ok

Na manhã seguinte perto das 10 horas, ela que dormiu assustada e me esperando, ligou novamente para a tia e disse que eu não havia voltado para casa. Daí foi um tal de liga para a empresa em que eu trabalhava e o porteiro informou que eu havia saído perto das 19h. Liga para uma colega de trabalho e ela disse não saber de meu paradeiro e que eu não tinha nenhuma programação para o findi. Durante o dia todo foi um ligando para o outro e todos ligando para mim.

A noite avançou e as notícias não chegavam. Meu irmão já tinha ido na empresa pegou o minha agenda pessoal e fez uma triagem em ligações. Chefes, subordinados, colegas, exes etc. Lá pelas tantas alguém rastreou o meu celular e descobriu que o último sinal do aparelho tinha sido num bairro pouco ortodoxo da cidade, ou melhor o mais perigoso a vidas humanas latentes. O desespero se espraiou. Outro alguém consultou os búzios ou cartas e a resposta foi de que eu estava em estado de iluminação, num plano superior e que estava bem e preocupada com a família. Via lágrimas em mim e muito cansaço.

Ninguém mais segurou ninguém. A festa de lançamento da reforma do banheiro de uma amiga virou em drama. O Secretario da segurança pública do Estado foi comunicado. Toda a polícia estava em busca do meu Kasinho que poderia ter sido roubado e eu vítima de seqüestro ou coisa pior.

E, o pior é que eu estava bem, em um plano superior e em lágrimas de ressurreição. Tudo pela culpa de eu ter ido em busca de meu eu e ter formado mais nós, que a própria vã filosofia não pode explicar. E aquele que deveria ter sido meu segurança, meu elo com a vida real, morreu por um fio. Não dá nem para confiar no próprio celular. E falando de celular tem mais umas estórias de espantar, porém não faz parte desta, que finalmente foi esclarecida e por durante muito tempo eu ainda ouço das pessoas palavras de apreço e de indignação pelo ocorrido.

Mas o que até hoje não consegui convencer foi o meu irmão que eu estava lá no Templo, rezando e pedindo por momentos de mais integração e afeto entre as pessoas. Para ele e alguns outros, eu estava era em alguma sacanagem, que nem imagino qual seja e com certeza, não foi com ninguém da agenda.

Circe Brasil
comunicóloga

Se contar ninguém acredita

Abril 2, 2008

Coisas acontecem na vida da gente e quando relatamos ninguém acredita. Até Deus duvida. Ou é Ele quem esta se divertindo nos bastidores?

Houve um período de minha vida em que me deparei com sentimentos de muita solidão. Tinha um bom emprego, filhos crescidos, contas pagas e um lar vazio nos fins de semana que meus pimpolhos ficavam na companhia do Pai. E num destes, ao final do dia da sexta-feira, o coração me comprimia ao lembrar que chegaria em casa com as frutas, o pão e não teria com quem compartilhar, ou ouvir as queixas de quem estava cheio de vida, ilusões e entusiasmo em realizar.

Naquela tarde, porém, resolvi fazer diferente, por impulso, decidi acompanhar um Grupo de meditação que iria para um sítio passar os dois próximos dias em busca do nirvana, com as mentalizações e ações de bioenergética do mestre OSHO.

Olhei o relógio digital do supermicro que eu trabalhava e os números apontavam quase dezenove horas, peguei no telefone disquei…disquei nada, apertei as teclas do Templo e perguntei que horas seria a partida do Grupo para o sítio. Entrei em disparada quando me informaram que partiriam às 20h. Desliguei e fechei tudo normalmente, conforme sempre fazia ao término do expediente e voei os 15km para casa no meu Kasinho, peguei o básico para higiene pessoal, sem olhar para as camas por arrumar, a louça para lavar e outras atividades que fazia normalmente ao chegar em casa, parti.

Cheguei a tempo da divisão de pessoas por carro e saímos em comboio por um trajeto que nunca d’antes percorri. Aliás, nunca também tinha feito qualquer atividade semelhante ou freqüentado tal exercício Osholar. Buscava somente uma ocupação interessante, ao encontro do “eu” em favor dos “nós”, ou na solução de desfazer os nós do eu. Doeu. Mas alguém havia falado que era interessante e acreditei.

Até aí nada de extraordinário. O sítio era simples, porém rico em natureza e isolamento. A comida, logo servida, era natureba e fresquinha. As pessoas se comportavam como em um acampamento escolar, seguiam as regras, ouviam atentamente, limpavam o que sujavam e arrumavam o que estava para consertar. O toque de recolher, veio depois das apresentações pessoais e da proposta de atividades para o dia seguinte. Às cinco horas da matina deveríamos acordar e correr para o beiral do rio, tomar um litro de água morna, sem respirar e depois você já pode imaginar…blergs

O dia foi repleto de exercícios doutrinários de esgotamento físico e emocional, o desempenho físico, a tolerância, a subserviência, os desapegos pelo conforto e a disciplina de horários, foram testados. Lágrimas, risos, gritos, iras, afeto, paciência, controle, atenção etc e etc foram provados. Resumindo, ninguém esta feliz com tudo que tem e sempre há algo para fazer-nos ansiosos e reclamões. Sou normal.

Sendo que…tento ligar do celular para saber como os meus filhos estavam, não consigo e sou avisada que na região não tem sinal devido as montanhas. A única forma seria usar o telefone da secretaria que naquele horário estava fechada. Pensei, amanhã eu tento. O amanhã chegou tão cedo como no dia anterior e a secretaria não abre aos domingos. Tudo bem, eles estão sendo cuidados pelo Pai, como sempre foi feito em doze anos. Normal. Mas fico ansiosa e mergulho nas intensas atividades em meditações para reparar a solidão e o sentimento de que ninguém precisa de mim e tanto faz existir. Estou só, sou só e não me sinto importante a qualquer pessoa. Chorei, chorei muito a minha desolação existencial. Gritei muito pedindo um sinal de que me fizesse acender a chama da vontade, da energia do entusiasmo. Oh Deus, por que nasci?

(continuação nos próximos dias)

Circe Brasil
comunicóloga

Tapinha na bunda

Outubro 3, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

Outro dia vi na rua uma cena que me despertou de pensamentos vazios e me comoveu. Na cena vi atitude, vi manifestação, vi protesto e imposição. Vi desenvolvimento e responsabilidade pessoal.

Um casal jovem caminhava pela calçada conversando informalmente quando o rapaz dá um daqueles tapinhas na nádega da garota, imediatamente ela se volta pra ele com um supetão no pé da orelha. Quem disse que tapinha na bunda não dói?Os ativistas deste desfrute alegam ser um gesto carinhoso e cheio de boas intenções. Também ouvi isso na implantação e nas extensões da CPMF: É para ajudar na saúde. Pode? E pergunto, de quem? Enquanto isso os gestos bem intencionados e unilaterais apelativos vão se estendendo e massificando, ficando. Politicamente incorretos e permanentemente prescrevem com o provisório. Se este gesto que arrecada em torno de 38 bilhões de reais, tem boas intenções com a saúde, por que o SUS está perto de dar o último suspiro? É por isso que fico doente com esses e os outros gestos apelativos em público. Não acredito em atos nobres que venham me tapear.

E o que vi na rua, foi um gesto aprendido na infância e repetido por toda a vida como um inocente ato, mas de puro domínio do rapaz. Só porque predestinaram que ser criança ou mulher é ser o lado mais fraco, menor, frágil e oprimido, devo ser? Nunca. Tenho poder pela vontade, coragem, dignidade e liberdade para me proteger e reivindicar ser tratada com o respeito e a cortesia que mereço.

Mas vivo num mundo de humanos desiguais que fazem questão de manter gestos de dominação e poder, com estes tapinhas em público. Como se assim dessem recado aos seus iguais, de sua condição quanto àquela presa. Ora, ora, o tempo passa, mas as artimanhas de demarcar espaço são as mesmas em todos os viventes.

Que fique bem claro entre nós, não sou antipartidária e arisca a carinho e manifestações mais audaciosas entre os íntimos, aliás este capítulo é profundamente interessante e deve ser tratado com muita ousadia na intimidade, mas na intimidade, pois em público, pra mim é troçar.

Sabe aquela coisa de quando se é adolescente e inseguro e não se sabe onde colocar as mãos diante dos outros, pois é, tem gente que está crescendo e continua colocando a mão em lugar errado, só por/ou/pela insegurança. E ficam aí, tapeando os outros.

Está na hora de mudar. Pense comigo…Tapinha na bunda levava a sua avó.

O Prio do Fobre

Maio 28, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

O frio é invenção para os ricos. Frio é que nem o petróleo, coisa da natureza explorada, para explorar. Uns povos têm mais que outros e os que têm cobram caro pelo uso.

Viver o frio sem um ardente ar-condicionado, sem um estufante casaco de visom, sem botas forradas e de cálices vazios, não é viver, e sim sobreviver ao frio, ou morrer de frio.

O frio pede lareira, bebida quente, forno potente, comida escaldante, luz abundante e quando não se tem alguém aconchegante, vale um livro arrepiante. O gelo tenciona, oprime, aprisiona e da calafrios. E a farmácia, nossa, essa é enervante.

O frio foi criado para quem tem crédito com o Papai Noel, quem possui confortadores abrigos, generosos amigos e fartas contas bancárias. Pelado não se cria no frio. Umas luvas de pelica são os olhos da cara, um cashmere é inviável e água quente nas torneiras é só para quem tem gás nos canos.

O frio entorpece, desfalece e enfraquece. É anticorpo, as maças do rosto racham, a barriga da perna fica com câimbra, o peito do pé murcha e as meninas dos olhos lacrimejam. A boca cerra e os dedinhos encolhem. E não há letrinha que aqueça a sopa sem um bom cobertor de orelhas ou pé de porco.

Cadê os ursos e onças pintadas para aquecer as nossas costas e os coelhinhos nossos pés, cadê? Os cuscos choramingando só nos deixam de cabeça quente. E os bem-te-vi que não cantam mais por aqui, congelaram? Pobre viver frio é antever a morte sem lápide.

Brhummm, o fobre no prio é rico em falta de ar e muito espirro, Atchim…tô quentinha nas têmporas, vou procurar uns jornais e um foguinho no cantinho na ponte.

O encanto voa

Abril 11, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

Bem te vi

Muitas vezes no dia penso nos pássaros. Logo ao amanhecer, ouço seus cantos e emputeço. Ao atravessar um praça desvio de seus dejetos. Ao apreciar a paisagem detecto suas presenças, com os sons, com as sombras, com os toques. Belas aves, encanto-me com seu canto e a alegria de viver. Sem um solo, sem um teto, sem móveis e eletrodomésticos, sem IPTU ou IPVA, sem cotoveladas em metrôs, ou esperas em aeroportos, livres, simplesmente livres e felizes.

Comendo migalhas e esquecendo academias. Se aqui faz frio, vão em bando pro lado de lá e vice-verso. Nada de espanto, só canto. E será o canto que me emputece? Tão pequenos e tão trovadores. Ouvidos a distância, guiados a quilômetros…acho que os invejo…não canto nada…queria muito cantar e cantar e cantar e não ter a vergonha de ser feliz …mas meu soprano alcança pequenos decibéis.

Um pássaro canta de um pé de cipreste e alegra toda uma praça, eu no máximo canto num pé de ouvido e faço arrepiar. Mas não só o canto, o ir e vir, sem precisar ficar, o conhecer, não nos livros, mas nos caminhos. A pura liberdade de ser desprendido, iludido ou aninhado.
E a rede e as conexões entre si, são de altíssima voltagem. Sim, porque pássaros estão mil anos luz conectados, você pensa o quê? Ficar tramando sobre o topo dos postes não é brincadeira não! São ações estratégicas entre os iguais, não é pose para foto. É cibenergia avançada.

Voe passarinho, voe e encontrará seu caminho. Pois aqui, faço só admirar a beleza como eterno aprendiz.
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

(Gonzaguinha)

Sinal de liberdade

Fevereiro 16, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

Novamente, estou apta a conduzir automóveis nas vias, rodovias, menos nas aerovias. Sou uma motorista profissional, atualizada quanto à regulamentação de trânsito, direitos e deveres dos motoristas, primeiros socorros e sinais. Assisti presencialmente 15 horas de aulas teóricas.

Sofri muito, pois o ar condicionado da sala estava sempre muito frio, nos primeiros dias não sabia como aquecer os pés dentro de cavadas sandálias e como cobrir o colo com o avantajado decote, o que estava adequado à temperatura de 36graus da rua. Foram os primeiros passos para eu ser previdente, levei casacos e pisantes fechados. Mesmo assim, não contive alguns espirros. Que horror, sinal de resfriado.

O instrutor era bastante severo, voz alta, grossa e possessiva. Uma delícia. Cheio de charme. Os alunos em sua grande parte maiores da terceira idade ficavam na espreita do mestre. Ele mantinha atitudes firmes e seguras para contrapor sua jovem aparência de guri rebelde. Até uma lagartixa estava tatuada em sua perna esquerda. Sinal de irreverência.

Acabei amando as aulas, no início fiquei aturdida com a tamanha ignorância que demonstrávamos em nossas respostas. Depois, entendi que na direção de um veículo, com o passar do tempo, atuamos de maneira quase instintiva aos sinais.

Meu maior prazer, foi ao terminar a última aula o professor me perguntou se eu havia entendido tudo. Disse que sim, até mais do que eu imaginava precisar saber. Por exemplo, falei a ele que antes eu não sabia da diferenciação entre uma marcação amarela e uma marcação branca no centro da pista, e que agora eu sei. Ele perguntou, e qual é, respondi feliz: a cor.

Outra grande pista foi saber a diferença diante de uma marcação zebrada e uma não zebrada. Convicta, respondi: a primeira diz que se eu continuar vai dar zebra, a outra pode dar outro bode qualquer. Ele baixou a cabeça entre as mãos. Agradeci e saí diante de tamanha reverência. Sinal de que aprendi tudo.

Bem, vou terminar aqui para levar umas crianças para passear de carro pela cidade. Sinal de perigo!

Cinéfila eu?

Fevereiro 9, 2007

Circe Brasil
comunicóloga

Nunca fui cinéfila e acho difícil que venha ser. Criada num ambiente confortável e protegido, me voltei a ser uma livrófila. Hoje, percebo que perto do que meu filho se tornou, eu não fui, é nada. Aliás, nadar era o que eu mais gostava de fazer, até nos sonhos. Com isso, criei uma verdade própria, de que os seres vivos surgiram da água, e na evolução da espécie foram se tornando terrestres e depois de bem evoluídos se tornam aves voadoras. Sobre ciências sonhadoras, quem melhor fala é o Galileu, pois aqui só estou voando.

De volta à terra, afirmo ser uma expectadora e admiradora da arte do cinema. Assisto aos filmes, atenta ao que posso aprender. Vejo os criadores, os produtores e os intérpretes, seres dignos de encantamento. Usando, abusando e se superando nas técnicas e signos de comunicação visual e auditiva. Acrescido de campanhas publicitárias persuasivamente vanguardas e entusiásticas.

O cinema para mim é uma arte, como a música, os textos, a dança, a arquitetura e as artes plásticas, dentre as tantas mais existentes, como a culinária e a perfumaria. E como arte, meus únicos comentários são: entendi ou não entendi. Ou melhor, acompanhei ou viajei. Recuso-me a mudar um sinal, qualquer. Arte corre na veia, e cada um tem a sua composição “articular”.

Sou livre para criar a minha e responsável para respeitar a dos outros.

E é bem isso, quando assisto a um filme mais de uma vez, sempre o percebo diferente. Projetando mais conteúdo de cada vez. Cinema é uma roda da vida, tem muita coisa girando em torno. O contexto político, o econômico, o emocional, o ambiente, a companhia, o clima, o espiritual, o alimentar, somados aos mais subliminares e quem sabe os inconscientes, tanto universais como particulares. Tipo assim, ver maremoto, depois de ter comido uma feijoada na casa do Zé, que vive brigando com a filhinha que faz xixi nas calças e senta molhada em seu colo, onde um ventilador não dá conta do calor de 35 graus, no domingo após a derrota do Inter. Convenhamos, não terei uma percepção intelectualizada desta peça artística.

Por ora, lembrei de quando eu era aprendiz de adolescência, matei a aula com uma amiga e fomos assistir o Exorcista. Como eu tinha medo, cada vez que o malígno se aproximava eu fechava os olhos e ficava ouvindo os sons. Interessante. Eu me esforçava para desassociar a cena ao som. Ouvia ronco de porcos, batidas em metal, gritinhos, etc. Até hoje, nunca vi o filme com os olhos abertos. Ainda não estou preparada. Meus filhos é que me descrevem as cenas. Ah, e quando estava grávida de meu primeiro filho, foi o grande lançamento do ET. Fiquei atrás da cortina na entrada da sala de cinema, alegando falta de ar. Era puro medo de sonhar de noite que meu filho fosse nascer com a aparência do ET. Não sei não, se os dedinhos compridos que ele têm não foram influência.

Como leiga, posso falar da inspiração que as obras me traduzem. Em vários de meus textos já manifestei isso. Não me coloco como analista, mas sim como surfista no contexto cenográfico, me entrego às ondas textuais, faço vacas e jacarés nas profundezas interpretativas. Ainda estou “zoando” os 14 filmes que vi no último feriado.

Cinema é pura arte. A beleza ou não de cada peça, está nos olhos de quem as admira.