Arquivo da categoria ‘Lidia Lead’

O Rio de Janeiro continua sendo

Janeiro 22, 2008

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Entre um bloco e outro do animado pré-carnaval do Rio, no último domingo, uma roda de samba de respeito era de lei. Em pleno centro, na tradicional rua do Ouvidor, na porta da charmosa livraria Folha Seca, que vem dando enorme contribuição à vida cultural da cidade, compositores geniais como Paulinho da Viola, Silas de Oliveira e Cartola eram reverenciados a plenos pulmões. Magia pura naquele recanto marcado por antigos casarões, onde também se encontra a bela igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, fundada em 1747.

Ali, não ficava difícil imaginar que naquele chão, em algum lugar do passado, escravos tivessem feito algum batuque em momento de resistência. O clima de boa nostalgia misturado ao cheiro da chuva que caiu forte no fim da tarde era o cenário perfeito para aquele grupo de músicos, jovens em sua grande maioria, carimbar o valor da melodia em detrimento de outros hábitos esquisitos que costumam ter, infelizmente, certos jovens da Barra da Tijuca, principalmente.

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Em torno da roda, gente de todas as idades e profissões cantava com a mesma alegria sambas que homenageavam as escolas de raiz, fosse o Império Serrano ou a Mangueira ou a Portela. Ali, como dizia o inesquecível samba enredo da Verde e Rosa, em 1967, “tudo era maravilha, tudo era sedução, quanta alegria e fascinação”…

Quem viu, viu, quem não viu perdeu e São Sebastião do Rio de Janeiro, em seu dia, certamente sorriu!

Lidia Pena
jornalista

Sincera homenagem a um bravo guerreiro

Agosto 30, 2007

Lidia Pena
jornalista

“Ação de criar, ação de fazer, Ação cidadania fazendo acontecer”… Este refrão do happy cantado a ritmo de palmas cadenciadas pelo público que lotou o teatro SESC Ginástico, na noite de 21 de agosto, dá a dimensão exata do trabalho realizado por Mauricio Andrade à frente da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, depois que Betinho se foi.

Agora, o pernambucano, e cidadão fluminense, Mauricio Andrade, também partiu, mas seu sonho em transformar a vida dos excluídos em festa, trabalho e pão vai continuar na garra dos inúmeros comitês de Ação da Cidadania, espalhados por todo o país e que se fizeram representar com sincera emoção na justa homenagem preparada por diversos amigos de Mauricio, de sonho e de trilha, no centro do Rio.

Coordenado por Bia Lessa, o evento reuniu gente de várias tribos e foi apresentado pelas belas e engajadas atrizes Dira Paes e Mariana Ximenes. Nos textos lidos e nos falados pelos autores presentes, a saudade de Mauricio era retratada pela sua incrível capacidade de sonhar e de buscar parceiros que ajudassem a sua luta a se perpetuar e a dar bons frutos, como a mesa farta montada anualmente para os humildes em tempos de Natal, no Aterro do Flamengo. (Ali, não por acaso, ele quis afetuosamente que fossem jogadas as suas cinzas).

Assim, parceiros como Ziraldo, Bruno Vilas Boas (diretor do Sesc Rio), Luiz Erlanger (diretor da TV Globo), representantes dos ministérios do Desenvolvimento Social e da Cultura, além da filha Carol e de lideranças surgidas do povo no intenso trabalho da Ação da Cidadania, entre outros, reconheceram em seus emocionados depoimentos o importante papel deste guerreiro brasileiro na luta por um país mais justo, mais ético e fraterno.

E Mauricio também foi cantado em belos versos do violonista Marcos Lucena. E foi lembrado num vídeo que mostrava o seu jeito ativo e dedicado de ser, o bonito e diversificado espaço em que se transformou o galpão da Ação da Cidadania na zona portuária do Rio, o seu desejo de saciar não só a fome do pão como também a do livro – sua última e grandiosa paixão, a de fazer chegar boa literatura aos recantos mais desprovidos do país – e que revelava, por fim, o seu largo e cativante sorriso, diante do qual, segundo tantos testemunharam, era impossível dizer não.

Mauricio Andrade vive!

OBS: Conheci o Mauricio na militância da esquerda carioca. Sempre doce e firme! Várias vezes nos esbarramos nas mesmas causas. No Natal de 2006 o encontrei no Largo do Machado na atividade de recolhimento de livros. O corpo abatido pela doença, mas a fala empolgada de sempre. Nos despedimos com um forte abraço que, lamentavelmente, seria o último.

Um Bloco de Segunda com estilo

Fevereiro 7, 2007

Lidia Pena
jornalista

Se o assunto é carnaval e blocos de rua, impossível não falar no Bloco de Segunda, que acaba de escolher o samba/2007 com o enredo: “É de segunda, mas é nosso”. Rio de Segunda é o nome do vencedor, que dentro da característica maior do Bloco, a irreverência, em determinado momento diz assim: É nosso esse Bloco de Segunda/ Segundo turno, São Paulo não!/Comprei um caveirão/ Que é de segunda mão/ E agora estou vendendo proteção…

Nosso bloco sai há 20 anos pelas ruas de Botafogo, sempre concentrando na Cobal/Humaitá e tem uma origem engraçada. Tudo começou quando um animado grupo de militantes da esquerda, morador do bairro, porém freqüentador da praia de Ipanema, de saco cheio da política vigente à época, resolveu organizar um desfile de carnaval para esculhambar a dita cuja em pleno 7 de setembro. E assim, no dia da Independência, em 1987, aconteceu o primeiro desfile do Bloco, ainda sem nome, com um samba divertidíssimo, que entre outras pérolas perguntava “por que não trocar o Sarney por D. Pedro I ?” O sucesso foi tanto, que, cobertos de glória, resolvemos sair também no carnaval de 1988 e passamos a fazer dois desfiles por ano.

Aí resolvemos ocupar a segunda-feira de Momo, já que o sábado era do Barbas, o domingo do Simpatia e o Suvaco só saía, como até hoje, antes do carnaval. Assim foi batizado o De Segunda, com a malícia do duplo sentido que sempre deu margem a deliciosas sacanagens…
Depois, plano econômico vem, plano econômico vai, a grana ficou curta e optamos por desfilar somente no carná. O símbolo do De Segunda é uma bela arara e as camisetas, modéstia à parte, são lindíssimas, sempre assinadas pelo nosso designer exclusivo, o Betuca, que já fez uns dois pit stop no Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, mas continua firme, forte e criativo, graças a Deus e aos orixás!

Ao longo de todos esses anos, tivemos sambas antológicos e desfiles sensacionais, alguns debaixo de muita água e um, peculiar, no qual o carro de som pifou e a galera levou o samba na garganta até o fim do desfile sem parar, atrás da bateria espetacular de mestre Felipão, a mesma da escola de samba da comunidade do Morro Santa Marta, que também fica em Botafogo. Com tantas qualidades, modéstia à parte, o bloco só fez crescer e há alguns anos juntamos quase 5 mil pessoas, e também começamos a viver o sufoco que hoje, infelizmente, atormenta os badalados blocos da zona sul do Rio e não sabemos como evitar.
Mas, como este ano pode não ser igual àquele que passou, todos lá na Cobal do Humaitá, no dia 19 de fevereiro, para cantar o sensual refrão: Tua sede me água/Não esconde teu calor/Incendeia o meu Bloco/Bota fogo meu amor.