Washington Araújo, jornalista

Eu, Vinicius (o sortudo) e meu irmão, Lula; a torcida num Morumbi lotado e no aeroporto, com um santista da torcida bebê e o pai, que veio do Mato Grosso só para o jogo.
“O Santos está jogando muito hoje”. – Padrinho, este é o Santos que conhecemos -, a resposta do meu afilhado, Vinicius de 12 anos, em meio aos 59 mil torcedores que lotaram o Morumbi no domingo, me deu mais ânimo para acreditar na conquista do título. Até aquele momento, no meio do segundo tempo, o Santos ganhava de um a zero do São Caetano, sufocava mas a bola não entrava. A gente precisava de mais um gol para sair dali com o título. A torcida não desanimava, todos sentíamos que o gol estava para acontecer a qualquer momento. E aconteceu. Foi um grito só! Uma alegria que estava sufocada há semanas.
Mais tarde, já no aeroporto, fiquei pensando: feliz é o Vinicius. Com oito anos o garoto já foi campeão brasileiro; com nove, vice-campeão da Libertadores; aos 10 campeão brasileiro novamente; com 11 campeão paulista e, agora, com uma dúzia de anos, bicampeão. Nasci numa época áurea do Santos. Na década de 60 vivi meus primeiros dez anos com o peixe campeão de tudo quanto era campeonato que participava. Pelé e companhia arrasavam. Mas aí eu era um lambari, lembro de pouca coisa. Nunca fui a um estádio com o meu pai. O que me consolava era o rádio de pilha que ele ficava ouvindo. Eu, de carona, vibrava com as famosas tabelinhas Pelé e Coutinho que encantaram o mundo. Mesmo não sabendo direito o que significava a palavra tabelinha, me arrepiava todo com o grito de gol do narrador. Muitas vezes meu pai dormia ouvindo o jogo (ele diz que era rotina o Santos jogar bem e ganhar e isso não lhe fazia perder o sono) e sobrava para minha mãe, que contava no noutro dia o resultado e quem tinha feito os gols.

Mas depois, quando comecei a me entender por gente, na década de 70, o meu Santos não ganhou nada. A não ser um título dividido com a Portuguesa, pois o Armando Marques errou na contagem dos pênaltis e o Santos foi prejudicado. Mas demos alguma alegria à “burra”. Mas alegria, alegria, só na Copa do México. Eu tinha 12 anos, a idade do Vinicius. Depois fui saber o que era um título só em 78, já com vintão nas costas. E foram pingando uns títulos até 1984. Depois, uma seca total. Só em 95 é que fomos para uma final. Eu já com meus 37 anos, tomando gozação de corintianos, são-paulinos, palmeirenses me enchi de esperança. Esfreguei tanto as mãos que sumiram algumas linhas, talvez até a de uma vida mais longa. Um árbitro mal intencionado jogou por água abaixo minhas esperanças. Não é choro de perdedor, não. Tanto que a torcida do Internacional sentiu o gostinho da safadeza deste árbitro chamado Márcio Resende. No ano passado ressuscitaram o homem só para roubar o colorado contra o Corinthians.
Depois deste roubo, mais uma fase de seca, mas quando chegou 2002 choveu e como choveu no nosso mar. Robinho e Diego chegaram para a nossa alegria. A história todos conhecem, já até contei acima ao falar da sorte do meu sobrinho afilhado. Aliás, que sortudo este garoto. Tomara que a sua sorte continue para que ganhemos mais e mais títulos e vejamos o Santos jogando como sempre. Não é Vinicius?